Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Eça de Queirós e a Actualidade Política

Comecemos por relembrar uma afirmação de Eça de Queiroz, em "O Conde de Abranhos":
"Este governo não cairá porque não é um edifício, sairá com benzina porque é uma nódoa"...
Os professores estão hoje debaixo de um fogo cruzado em que governantes e sociedade os consideram como dos piores cidadãos que  um país pode ter. Depois de insinuarem que faltam muito e que têm demasiadas férias, estava justificado o arrombo governamental às suas carteiras e a destruição de uma carreira legitimamente conquistada pelo esforço e dedicação. Porém, depois de muitos anos de estabilidade, muitos professores não sossegaram enquanto não chegamos ao ponto em que estamos hoje.
De facto, muitos dos que agora pela blogosfera se afirmam arrependidos apresentam um desencanto semelhante ao de muitos dos que nos consideraram publicamente como "pessimistas" quando se iniciou o processo de Autonomia das Escolas e a implementação daquilo que na altura se chamava de "Novo Modelo de Autonomia e Gestão das Escolas"... Conhecendo o seu conteúdo e a ambiguidade do que nele vinha expresso, a abertura existente para o que hoje se está a fazer, sempre fomos muito críticos quer quanto à eficácia do novo modelo (apenas estratégia para instalar o caos e justificar aquilo a que hoje assistimos: insultos à dedicação e competència de todos os professores, únicos que deveriam avaliar os alunos mas que acabam por ser avaliados na praça pública por todos, até por alunos insurrectos ou que sistematicamente reprovavam na escola!...) quer quanto à benevolência das intenções governamentais... Nao é por acaso que povo diz: "quando a esmola e grande o pobre desconfia"... É que quando parecem querer dar com uma mão, afinal, estão mas é a tirar com as duas...
Como referimos, no último ano do século passado, fomos considerados como pessimistas, numa conferência sobre a Autonomia das Escolas onde a administração reuniu um grupo de voluntários sonhadores que acreditaram nas intenções governamentais acompanhando-os na "venda da banha da cobra" e apregoavam aos quatro ventos as vantagens da conquista das escolas e dos professores. De facto, aquilo que apregoavam não passava de um presente envenenado...
E, como na altura respondemos, para nós, havía um enorme equívoco  quanto à nossa vontade de acreditar na Autonomia das Escolas... O grande problema de muitos daqueles sonhadores é que quando nos chamavam de pessimistas não se tinham ainda dado conta de que "um pessimista" é um "optimista bem informado".  E, como tal, conhecendo a postura demagógica dos políticos portugueses e o processo de legitimação das suas práticas, o modelo não nos fazia crer na sua bondade pois o que estava plasmado na lei não dava qualquer garantia de uma verdadeira autonomia.
Infelizmente, o tempo veio provar também que esse grupo de sonhadores "optimistas" não  passava de um grupo de "pessimistas mal informados". Compreendemos por que hoje o seu desencanto é total.
Muitos dos nossos colegas apoiaram a autonomia das escolas numa corrida desenfreada aos lugares de "poder". E, hoje, quando se vislumbra um aumento desse poder na avaliação dos seus pares (restos de salazarismo que publicamente tanto repudiam), os lugares de direcção das escolas acabam por ser ainda mais apetecíveis pois já se sentem num "mini-poleiro".
Hoje assistimos à destruição de tudo quanto eram os sonhos românticos da Autonomia, da inclusão (hoje constatada com "integração selvagem") de todos os alunos do Ensino Especial nos estabelecimentos do ensino regular, sem quaisquer critérios que não sejam os economicistas...
Foram as atitudes de muitos dos nossos colegas (que hoje se dizem arrependidos) que acabaram por despoletar o modelo de avaliação da Ministra que, sem se justificar, provocou o descalabro total nos estabelecimentos de ensino... e criou o ambiente "de cortar à faca" que hoje está instalado
De facto, só desconhecendo a realidade dos recursos das diferentes escolas do país, e considerando os alunos como tijolos se pode crer que é possível avaliar o trabalho dos docentes...
À partida, quando pensamos no nosso profissionalismo, todos nos consideramos os melhores! E por isso dizemos que é injusto que todos ganhem o mesmo ou tenham a mesma avaliação... Porém, quando o feitiço se vira contra o feiticeiro e aqueles que nós considerávamos como menos competentes (ou até incompetentes!) são hoje promovidos por esta Ministra a professores Titulares ou a Avaliadores... Depois... é tarde. E, é vê-los atar as mãos à cabeça e a gritar "Valha-me Deus..."
Claro...  é por estes professores (que se julgavam os melhores) e outros que tal que estamos como estamos...
Portugal tem em alguns dos seus escritores, textos que são inapagáveis e que demonstram muito bem o quanto estamos parados no tempo. Basta ler a visão dos políticos que Eça de Queiroz nos apresenta para verificar e constatar que esta é a realidade.... Parámos no tempo. E por isso, o que há um século se dizia permanece com valor inalterável...
Por isso, a esperança é a última a morrer... E, sabemos muito bem pela história, que mais cedo ou mais tarde o "Gigante  com Pés de Barro" acabará por sucumbir...
Por isso, voltaremos a relembrar a afirmação de Eça de Queiroz:
"Este governo não cairá porque não é um edifício,sairá com benzina porque é uma nódoa"...
De facto, os políticos portugueses não aprendem nada com os currícuios que eles mesmos colocaram em vigor durante décadas... E a culpa, claro, como não pode morrer solteira, é dos professores!... Como é qu estes senhores aprovaram quando frequentaram a Escola...? Terão apanhado a boleia da história passaram administrativa...? De entre os políticos que actualmente surgem nas direcção dos partidos, quantos é que não pertencem à geração escolar do tempo do PREC e do 25 de Abril... ?
Respostas, procuram-se!
publicado por J.Ferreira às 19:23

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