Sábado, 3 de Julho de 2010

Habilitações para ser Ministro.

“Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:

Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente, possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai de uns certos grupos como uma pélcoa que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.

Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião e os dizeres de todos os outros que lá não estão - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do País!

Os outros, os que não estão no poder, são, segundo sua própria opinião e os seus jornais - os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País.

Mas, coisa notável - os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem - os verdadeiros liberais, e os interesses do País!

Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do País; entanto que os que caíram do poder se resignam, cheios de fel e de tédio - a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.

Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da fazenda e ruína do País...

Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis...

Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas - pela imprensa, pela palavra dos oradores, pelas incriminações da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador...

E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai, feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto tão triunfante!

Daqui provém também este caso singular:

Um homem tanto é célebre, tanto mais consagrado, quantas mais vezes tem sido ministro - isto é, quantas mais vezes tem mostrado a sua incapacidade nos negócios, sendo esbanjador da fazenda, tuína do País, etc.

Assim, o Sr. Carlos Bento foi a primeira vez ministro da Fazenda. Teve a sua demissão, e não foi naturalmente pelos serviços que estava fazendo à sua pátria, pelo engrandecimento que estava dando à receita pública, etc... Se caiu foi porque naturalmente a opinião, a imprensa, os partidos coligados, o poder moderador, o julgaram menos conveniente para administrar a riqueza nacional. E o Sr. Carlos Bento saiu do poder com importância.

Por isto foi ministro da Fazenda uma segunda vez. Mostrou de novo a sua incapacidade - pelo menos o julgou, por essa ocasião, o poder moderador, impondo-lhe a sua demissão. E a importância do Sr. Carlos Bento cresceu!

Por consequência foi terceira vez ministro. Caiu; devemos portanto ainda supor que naturalmente deu provas de não ser competente para estar na direcção dos negócios. E a sua importância aumentou, prodigiosamente.

É novamente ministro: se tiver a fortuna de ser derrubado do poder, e convencido pela opinião de uma incapacidade absoluta, será elevado a um título, dar-se-lhe-ão embaixadas, entrará permanentemente no Almanaque da Gota...

 

Ora tudo isto nos faz pensar - que quanto mais um homem prova a sua incapacidade, tanto mais apto se torna para governar o seu país!

E, portanto, logicamente, o chefe do Estado tem de proceder da maneira seguinte na apreciação dos homens:

O menino Eleutério fica reprovado no seu exame de francês. O poder moderador deita-lhe logo um olho terno.

O menino Eleutério, continuando a sua bela carreira política, fica reprovado no exame de história. O poder moderador, alvoraçado, acena-lhe com um lenço branco.

O caloiro Eleutério, dando outro passo largo, fica reprovado no 1º ano da Faculdade de Direito. O poder moderador exulta, e quer a todo o transe ter com ele umas falas sérias.

O bacharel Eleutério, avançando sempre, fica reprovado no concurso de delegado. O poder moderador não pode conter o júbilo, e fá-lo ministro da Justiça.

 

E a opinião aplaude!

 

De modo que, se um homem se pudesse apresentar ao chefe de Estado com os seguintes documentos:

Espírito de tal modo bronco que nunca pôde aprender a somar;

Reprovações sucessivas em todas as matérias de todos os cursos.

O chefe do Estado tomá-lo-ia pela mão, e bradaria, sufocado em júbilo:

- Tu Marcellus eris! Tu serás, para todo o sempre, Presidente do Conselho!”

 

in As Farpas

 

Tantos anos depois e ... nada mudou...!  Constata-se que o curriculum (ou a ausência dele) continua a ser o critério para seleccionar os nossos governantes. E nem vale a pena pensar em José Sócrates... Está no Governo "de pedra e cal". Não vai cair!...

Basta ouvir falar este grande homem... Sim. Basta ouvir falar este administrador para  perceber de que está recheada a sua competência.

 

Sim. Vejam "com olhos de ver", ou melhor, "escutem com ouvidos de escutar" o que diz o GRANDE HOMEM que o vídeo acima nos apresenta! Sim. GRANDE... Pequeno sou eu e muitos outros portugueses. Sim... Porque este até conseguiu chegar a administrador!

 

Qualquer professor deve ter inveja... E não é da competência !
Agora percebo... Há que avaliar... Pena não haver o prémio "livro de ouro"... talvez tivesse que concorrer com a nossa Isabel Alçada... A ver... Sim... A ver a quem iria tocar o prémio!
Sem dúvida que Portugal pouco ou nada mudou desde o tempo de Eça de Queirós... Continuamos a ter os nossos "Eleutério" como no tempo de Eça de Queirós. O lamentável é que busquem sacrificar quem nada tem a ver com a desgraça económica, com a falência para  que os políticos conduzem o Estado Português...

 

O problema é que são estes que chegam a administradores. Senhores como este facilmente chegam a deputados… E este, em concreto, com tanta competência, corre um sério risco de, tal como outros incompetentes, ser nomeado Ministro! E, já que percebe muito de futebol, quem sabe, chegue a Ministro da Educação. Depois, os professores que os aguentem.

Basta de bater na competência (ou ausência dela) deste Administrador... Mas creio analisar o seu discurso permite perceber por que motivo Portugal caminha para o abismo. É que os lugares de decisão e de maior importância das empresas ou dos ministérios continuam a ser seleccionados por... por ... por ausência de critérios para além do cartão partidário. Depois, se a empresa dá prejuízo ou se baixam os lucros, os trabalhadores que aguentem com os custos da crise ou os consumidores que suportem o aumento sistemático dos preços dos bens de consumo pois, para o aumento dos ordenados destes senhores  é que tem de haver dinheiro...

E vejam o que se passou com a  mentira da subida dos preços do petróleo. Agora que baixou o preço do barril (esteve a 140 dólares e agora está abaixo de 70 dólares!) e a gasolina nunca esteve tão cara... Porquê?  A subida dos preços do petróleo foi uma mentira. Porque a verdade é que nas empresas tem de haver dinheiro para pagar aos seus administradores (ou seja, a competentes como este GRANDE SENHOR...!) os consumidores que paguem... E que nem piem!

 

Enfim... é caso apra dizer que se temos de ouvir este senhor, bem é preferível ouvir o Tino de Rans! Pelo menos é original... é autêntico.. é verdadeiro... E, sem dúvida, a julgar pelas habilitações  necessárias para ser Ministro, um dia ainda será igual a José Sócrares: Em primeiro... Ministro! Em segundo... Primeiro-Ministro!

 

 

Enfim...

Por este andar, com o massacre dos profissionais competentes e o endeusamento dos incompetentes, talvez um dia tenhamos o “Tino de Rans” a presidir a esta República… É que ele até em mérito. Foi à luta e chegou a Presidente da Junta…! E, vendo para que serve um Presidente da República, pelo menos tínhamos uma vantagem: poderia rir às gargalhadas sem ter de subscrever a TV-cabo ou de se deslocar ao circo: ele entraria em casa pelo Serviço Público de Televisão.

 

Que melhor poderia querer uma maioria do povo português, hipnotizado pelo bombardeio diário dos problemas do futebol e das intrigas das novelas?!

Claro.... E repetimos:

Sempre é preferível ouvir o Tino do que ouvir este Administrador...

 

 

Desde os descobrimentos, quando nobres e corajosos homens lusos marcaram um rumo para o país, nunca mais Portugal teve capacidade de definir um Rumo. Andamos atrás do que se faz como propaganda noutros países. E copiamos sempre o que há de pior... Ou seja, os nossos governantes tornaram-se especialistas em destruir o que há de bom. Assim, quando algo funciona bem, lá vem mais um ministro alterar o estado de coisas. E lá se vai tudo quanto Maria fiou... Anos de trabalho, meses e meses se não mesmo anos a navegar para Norte em busca do Bacalhau da Noruega, ninguém imagina chegar um no capitão  ao barco e mandar navegar para Sul pois sabem muito bem onde encontrar o bacalhau. Mas os incompetentes dos nossos governantes que chegam à competência por eleição (e não por provas dadas), andam constantemente a mudar de rumo... Resultado: não é possível chegar a lado algum. O Rumo é, cada vez mais, a "Ausência de Rumo". Sim, tal como há cerca de 140 anos...

 

Eça de Queirós escrevia:

 

"O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!'.

In 'As Farpas' nº 1 (1871).

 

O que dirão os portugueses daqui a 140 anos?

Será que os nossos netos e bisnetos estarão a dizer exactamente o mesmo?

 

publicado por J.Ferreira às 12:56

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