Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

Sócrates No País do Faz-de-Conta

Quatro em cada dez alunos do 6.º ano não foram além de duas respostas totalmente correctas em nove no domínio do Conhecimento Explícito da Língua na prova de aferição de Português, o que fica “aquém do desejável”.

Segundo o relatório nacional do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação sobre a prova do 6.º ano, ontem divulgado, 42 por cento dos alunos tiveram um máximo de duas respostas totalmente certas e 10 por cento não tiveram qualquer resposta integralmente certa.

“Os alunos evidenciam um bom desempenho ao nível da Compreensão da Leitura e da Expressão Escrita, mas permanecem aquém de que é desejável no que respeita ao Conhecimento Explícito da Língua”, lê-se no relatório.

Desagregando os dados, 38 por cento por cento dos alunos obtiveram uma classificação correspondente a “Não Satisfaz”.

 

A notícia de “O Público” deixa perplexo qualquer português minimamente reflexivo. A questão se levanta imediatamente: Afinal, de que serviu toda esta perseguição, esta azáfama em torno da avaliação dos professores? Afinal, que fazem hoje os professores: ajudam os alunos a aprovar nos exames ou tratam de aprovar no seu próprio exame? Parece-nos que a política socialista de perseguição cerrada e de destruição da imagem dos professores colocando em causa a sua competência e o seu profissionalismo conduziu à segunda. Com efeito, hoje mais do que nunca, os professores se encontram envoltos em burocracias e papeladas que em nada contribuem para libertar para a preparação do que de facto é essencial, isto é, das aulas que ministram. E o resultados parecem começar a ser uma evidência tal como a notícia indica. De nada serve investir em professores que avaliam professores se os primeiros não têm provas dadas de ser excelentes. Ora, nenhum professor que numa dada matéria seja apenas Bom ou Muito Bom poderá avaliar um Professor que seja excelente pois dificilmente conseguirá atingir o alcance dos conhecimentos do segundo, duvidando à partida, do que ele possa ministrar nas suas aulas. Mais grave ainda é quando um avaliador nem pertence à área do conhecimento do avaliado, ainda que ele aceite ser avaliado por aquele. Não deixa de ser isto uma farsa resultante da teimosia em avaliar professores quando cada vez menos se avaliam os alunos. É uma contradição faraónica. Pretende-se melhorar e por isso avalia-se os professores mas pouco importa se os avaliadores têm competência para desempenhar esse cargo. O importante é avaliar por avaliar (tal como Sócrates foi avaliado!). Igual que à mulher de César “não importa ser”... antes importa, isso sim, “parecer” hoje vivemos num mundo imerso e submergido em farsas. Desde as novas oportunidades aos cursinhos feitos nas férias e que se equipararam a mestrados, temos de tudo em Portugal, como diria o meu avô “graças a Deus”!

Na verdade, ao ler esta notícia em “O Público” ficamos perplexos. Como é que o povo não se dá conta de que, todas as alterações que os governos têm introduzido no campo da educação têm sido, ano após ano, uma autêntica desgraça. Ninguém entende o que querem estes governantes. A verborreia que se tem produzido ao nível dos governos socialistas é bem a demonstração de que todos os que passam pelo ministério gostam de fazer o seu xixi”, isto é, à boa semelhança dos canino, gostam de “deixar a sua marca territorial” para que todos saibam, no futuro, que determinado animal passou por ali.

Assim, desde Roberto Carneiro a Alçada Baptista, passando por Manuela Ferreira Leite, Couto dos Santos, Marçal Grilo e Maria Lurdes Rodrigues, cada titular da pasta da Educação pode dar-se ao luxo de fazer toneladas de lixo... Ora, se analisarmos quantos quilos de papel foram gastos em leis, decretos-lei, decretos regulamentares, despachos, circulares, etc. etc. depressa nos damos conta de que, muitos destes normativos nunca chegaram a entrar, de facto, em vigor. Isto porque desadequados à realidade ou ultrapassados pela máquina do tempo.

Assim, constata-se que, para muitos dos nossos governantes desconhecedores da realidade do sistema educativo, ao sentarem-se na cadeira do poder apenas quiseram emanar o máximo de documentos para que pudessem chapar  a sua assinatura no máximo de documentos, simplesmente para que não passassem desapercebidos aos anuários da História. Assim, os normativos que surgem plasmados no Diário da República constituem uma espécie de literatura (muitas das vezes mais do que normativos legais parecem artigos de jornais!) que para nada serve.

Admiramo-nos pois, que o povo não exija resultados práticos de tanta verborreia e venha agra o ministério concluir que cada vez estamos pior. Ora, sendo os professores cada vez mais formados, com habilitações mais elevadas, estranhamos que o defeito esteja nos professores. Todos sabem que um treinador de futebol assume as suas responsabilidades e vai-se embora quando a equipa não produz. Mas no caso recente, todos pudemos confirmar que a ministra Maria de Lurdes (com minúscula, pois não nos merece sequer a maiúscula!) estava de tal forma agarrada aos banco do poder que nem 120.000 professores em Lisboa numa luta contra a sua pretensão de praticar a maior das injustiças (que afinal veio a ser reconhecida pelo mesmo partido ao revogar a legislação que dividiu a carreira em dois, já que segundo os critérios absurdos desta incompetente ministra acabaram por aceder à categoria de professor titular (que dizia ser a dos excelentes) autênticas nódoas na profissão.

Sendo a legislação actual o principal obstáculo à cooperação anteriormente inequívoca entre docentes porque as quotas de 5% para a classificação de “excelente” a isso obrigam, não é de estranhar a desmotivação da maioria da classe pois sabendo que numa escola com 40 professores apenas 2 podem ter “excelente” (experimentem aplicar isso ao Governo ou à Selecção Nacional e vêem como depressa ficamos sem os melhores jogadores!!...) a maioria das escolas onde havia excepcionais professores passaram a entrar na rotina da desmotivação. Afinal, para quê esforçar-se se vai ser corrido com um simples Bom (quando a totalidade dos alunos de uma turma pode até ter excelente em todas as disciplinas!!...). Ora, a não contemplação do facto de que numa escola podem haver 50% de excelentes profissionais e noutra escola não existir nenhum que seja excelente é a maior das injustiças. Assim se compreende como é que os professores passarão a fazer “o mínimo” para continuar a merecer o Satisfaz ou o Bom (conforme o que for ou vier a ser exigido) que lhe permita progredir na carreira sem se esforçar e acabar por sair defraudado e revoltado pela falta de reconhecimento prático do seu esforço. Experimentem dar prémios de jogo apenas aos que são eleitos os melhores em campo e depressa vêm o egoísmo dos jogadores a “tentar dar nas vistas”...

Sem dúvida de que a filosofia da avaliação peca logo à partida ao considerar que os docentes de uma escola não são uma equipa e como tal, devem todos trabalhar para o resultado comum, recebendo a medalha como os jogadores da selecção, todos por igual, incluindo aquele que comete o erro grave que o leve à expulsão, que provoca um penalti ou que falha a sua marcação ou ainda, aquele que, fazendo um auto-golo, faz a equipa perder uma final. Uma equipa é uma equipa, para o bem e para o mal.

Se havia que avaliar algo em temos de educação haveria, necessariamente, que avaliar-se toda a equipa, incluindo os elementos da direcção da escola. Tal como no futebol se avaliam os jogadores e os treinadores todos ao mesmo tempo, ao longo dos jogos do campeonato. Só assim se verificaria o interesse dos docentes em cooperar a fim de colmatar as falhas ou dificuldades de companheiros mais inexperientes ou com performances menos capazes. Apelar à cooperação é o inverso do apelo ao individualismo. Se queremos melhorar os resultados da escola não podermos apostar na divisão dos docentes, mas na mobilização de energias para que a equipa possa atingir os melhores resultados. Só de uma avaliação assente neste princípio poderia permitir a uma equipa superar-se a si mesma ano após ano, de que os mais directos beneficiários seriam os alunos.

Se é verdade que alguns elementos poderiam estar, em temos de performance profissional, numa posição mais vantajosa (diríamos, em linguagem futebolística, alguns jogadores como Cristiano Ronaldo) a verdade é que em todas as equipas há bons e excelentes profissionais e que nem sempre é Cristiano Ronaldo o melhor em campo nem o que decide o resultado de um jogo. Logo, entender a escola como uma equipa é algo que permite construir uma ideia de escola cooperativa, desenvolvendo estratégias cooperativas que permitam conseguir o máximo empenho de todos e cada um dos seus elementos com vista a atingir metas comuns.

publicado por J.Ferreira às 00:11

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