Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

Optimismo versus Pessimismo

Hoje apenas decidi avivar a memória do povo que somos...

 

Alguns de nós, portugueses, somos criticados por sermos, imagine-se, muito críticos!

    Podem dizer que somos "negativistas" mas a realidade obriga-nos a ser "positivistas".

    Podem dizer que somos "pessimistas" mas a realidade obriga-nos a ser "optimistas"

    Sim. Mas com uma diferença. Há quem viva no mundo real e quem viva no mundo das ideias, num mundo imaginário.

Gostaríamos de ser daquele tipo de pessoas que o comum dos cidadãos considera "optimistas".

Mas para tal, teríamos de estar sempre mal informados. E isso, não é o que sucede. Daí que sempre tenhamos considerado que "um optimista, é um pessimista mal informado". Ao contrário do que a linguagem faz paensar, para nós, aqueles a que o comum dos portugueses costuma rotular de "pessimistas" são na maioria das vezes "optimistas bem informados".

Com efeito, quando um optimista detém a informação (como está a suceder com a maioria dos que se autoconsideravam "optimistas" até à comunicação do Ministro, na fatídica sexta-feira, 7 de setembro de 2012) imediatamente tomam atitudes próprias daqueles a quem chamavam de pessimistas.

Na verdade, não se passa nada de especial: simplesmente chegou a hora dos optimistas (comummente conhecidos que não passam de  pessimistas mal informados!) caírem na realidade. E passam a integrar o nosso clube: o clube dos "realistas". Bem-vindos, pois. Finalmente, a realidade forçou a despertar do sonho muitos optimistas mal informados (que no fundo, no fundo, não passavam de "pessimistas").

 

Enfim. Mais imporetante que esta dicotomia, seria bem mais interessante que fôssemos todos mais "realistas".

 

E, para que a realidade não seja vista como novidade, aqui fica um avivar da memória dos portugueses com um texto de 1896, descrevendo o povo que somos:

 

Um povo imbecilizado e resignado,
humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo,
burro de carga,
besta de nora,
aguentando pauladas,
sacos de vergonhas,
feixes de misérias,
sem uma rebelião,
um mostrar de dentes,
a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas
é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante,
não se lembrando nem donde vem,
nem onde está,
nem para onde vai;
um povo, enfim,
que eu adoro,
porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso
da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro
de lagoa morta (…) Uma burguesia,
cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal,
sem palavras,
sem vergonha,
sem carácter,
havendo homens
que, honrados (?) na vida íntima,
descambam na vida pública
em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia,
da mentira à falsificação,
da violência ao roubo,
donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral,
escândalos monstruosos,
absolutamente inverosímeis no Limoeiro (…) Um poder legislativo,
esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto
pela abdicação unânime do país,
e exercido ao acaso da herança,
pelo primeiro que sai dum ventre
- como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara
ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos (…),
sem ideias,
sem planos,
sem convicções,
incapazes (…)
vivendo ambos do mesmo utilitarismo
céptico e pervertido, análogos nas palavras,
idênticos nos actos,
iguais um ao outro
como duas metades do mesmo zero,
e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (…)

 

Guerra Junqueiro, in “Pátria”

 

publicado por J.Ferreira às 21:22

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