Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007

Consciências Mais Iguais que Outras ?

 

Aquando do último Referendo sobre esta matéria, muitos dos cidadãos (políticos ou não) se manifestaram, uns contra outros a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez.
Se muitos eram os pontos de confronto entre os intervenientes de cada um dos lados, havia um aspecto em que todos pareciam estar de acordo evidenciando sistematicamente que “esta era uma matéria de consciência”.
Sendo a consciência algo de interno e pessoal, que se relaciona com os valores e a forma como cada um de nós os sente e vive, não podemos, pois, avaliar as consciências como sendo melhores ou piores. Cada um de nós tem a sua própria consciência...

Se é uma questão de consciência, torna-se inaceitável pensar-se que algum dia uma possa ser considerada “melhor” do que a outra. Muito menos que duas consciências sejam “mais válidas” do que a de uma outra pessoa. Referendar-se esta matéria que é “uma questão de consciência” pode tornar-se na imposição da soma de umas tantas consciências a outro número de consciências minoritárias.

Não é pois possível entender-se como podem uns quantos indivíduos defensores de que “esta é uma questão de consciência” aceitar que uma parte (ainda que corresponda à maioria dos cidadãos) possa vir a impor a sua consciência à outra parte, ainda que esta seja de uma minoria de cidadãos.

Por isso, o SIM no referendo permite que cada um possa de facto assumir-se como dono da sua consciência.

Isto significa que, submeter-se a uma interrupção voluntária de gravidez é uma questão do foro íntimo (de consciência) de cada pessoa e como tal, não deve depender da maioria ou da minoria.

Assim, o governo deveria ter a coragem de legislar permitindo dessa forma que cada cidadão pudesse de facto deixar-se guiar apenas pela sua consciência.
O referendo, enquanto processo de auscultação da opinião dos cidadãos, apenas deveria permitir o voto daqueles que podem vir a encontrar-se abrangidos pela situação em causa que se pretende referendar.

Uma boa parte da sociedade portuguesa, desempenhando o papel de “moralistas” ou “moralizadores sociais” (que nunca aparecem para defender a vida de pessoas, sejam crianças, jovens ou idosos, que estão vivos mas sem vida, simplesmente ignorando a miséria de vida que se passa à sua volta, ou mesmo ao seu lado, enquanto esbanjam fortunas no mais supérfluo dos consumismos) parece querer voltar a organizar-se para tentarem impor uma vez mais a sua consciência à dos seus concidadãos.

De facto, a auscultação da opinião de cidadãos e cidadãs que, pelos mais diversos motivos (sexo, idade ou saúde) nunca poderão vir a encontrar-se em circunstâncias que os confrontem com a necessidade de proceder a uma interrupção da gravidez, parecendo ser democrática, não faz qualquer sentido.

No último referendo sobre esta matéria, fiz campanha junto dos mais próximos pelo “SIM”. Isto simplesmente porque não pretendia tão-pouco votar pois, em meu entender, nesta matéria, os homens nem deveriam votar. Considero que o seu papel é mais de mediadores da decisão das mulheres (de conselheiros, amigos, companheiros ou o que quiserem chamar-lhes) mas nunca deveria ser de decisão (imposição) pois não são eles (como eu) que “carregam” a criança no seu ventre durante nove meses!).
Nunca pretenderia impor a minha consciência a quem quer que fosse.
No entanto, decidi ir votar e voltarei a estar presente nesse dia. Para tentar contribuir para que o SIM possa devolver à mulher o que a ela e são a ela deve pertencer, e que já vem de tempos mais remotos: dar vida aos homens. “São as Mulheres – e só as mulheres – que põem Homens no Mundo!” E se algum dia a mulher decidir que não quer ir para a frente com uma gravidez, esta é uma decisão a respeitar. É uma questão de consciência. Trata-se do seu corpo. A Mulher pertence apenas à Mulher e não ao Homem. A Mulher encarada como um objecto sobre o qual o Homem todo-poderoso pode decidir, embora ainda desejada por muitos saudosistas, é uma concepção que pertence ao passado e, como tal, está totalmente ultrapassada.
O voto no SIM é, pois, quanto a mim, o verdadeiro sentido para a participação dos Humanistas neste Referendo.
Com o voto no SIM nenhuma cidadã é obrigada a interromper a gravidez. Porém, o voto no NÃO obrigará todas as mulheres a continuarem a viver num mundo da hipocrisia que levará muitas mulheres à morte, muitas crianças a sofrerem as consequências de se terem transformado em seres vivos mas sem vida.

Se se tem dúvidas, visite-se um site internacional escrito em português que bem demonstra a que chega a hipocrisia.
http://www.womenonwaves.org/article-1020.42-pt.html

Quando um cidadão votar no “SIM” não estará a limitar a consciência de nenhum outro. Simplesmente estará a deixar cada um decidir conforme dita a sua própria consciência.

Com o voto no “SIM”, estava garantido que nenhuma punição penderia sobre qualquer mulher que se sentisse na necessidade de interromper a gravidez.

A sua consciência seria a única que a levaria a optar pela solução que considerasse estar de acordo com a sua própria consciência.


Ao contrário, votar “NÃO” é limitar a decisão do outro, impor a sua consciência à do outro como sendo a melhor, é impedir o mais elementar direito de tomar atitudes de acordo e com a sua consciência.

Desta forma se compreende que, só o SIM e apenas o SIM claro é o Voto da Liberdade da Consciência e do reconhecimento da igualdade de valor de todas as consciências. Porque… em democracia, nenhuma consciência vale mais do que a outra.

Sou católico. Mas não sou Deus. A consciência, só a Deus compete avaliar... Quem se julga capaz de lançar a primeira pedra contra as mulheres que se vêem forçadas a tomar uma decisão tão difícil e penalizadora, primeiro do seu corpo, depois da sua consciência…? Não basta esse sofrimento para ainda se juntar o calvário de uma perseguição da sociedade?

Pela liberdade e igualdade de consciência de todos os cidadãos, votarei de novo, clara e decididamente SIM à interrupção voluntária de gravidez por decisão final única da mulher… convicto de que à mulher e apenas a ela compete decidir sobre o seu corpo…!

É caso para perguntar aos defensores da “Postura de Avestruz” e que continuam querendo “Tapar o Sol com uma Peneira”, fazendo crer a toda a gente que o problema está na falta de apoio para as futuras mães, que o feto é uma vida… etc… etc…:

“Quantas crianças, órfãos de pai e mãe, vítimas de vidas acidentes ou de doenças fatais, foram adoptadas, protegidas, acompanhadas, … enfim, acarinhadas, por aqueles que se dizem CONTRA a interrupção voluntária da gravidez?
Não tenhamos dúvidas de que, se o “Não" vencer no referendo, Portugal continurá a viver na hipocrisia. Estou certo de que muitos dos que hoje fazem campanha a favor do “Não” ao direito da mulher interromper uma gravidez não passam de pseudo-defensores da vida. Com efeito, ninguém tenha dúvidas de que, ao menor percalço nas suas vidas que as leve a engravidar, sabem muito bem onde se situam as Clínicas de Espanha para lá fazerem aquilo contra o que lutaram… de modo que ninguém, sobretudo na vizinhança, saiba o que lá foram fazer...!
Enquanto isso muitas mulheres continuarão, por sua culpa, a ser julgadas pelos mesmos actos que eles praticam com os devidos e adequados cuidados de saúde, em clínicas do estrangeiro, só porque têm mais dinheiro…

Não querer pagar para se fazer uma interrupção de gravidez, é uma mera falácia. Hoje pagam muito mais para curar coisas mal feitas e nunca se queixaram. E nem se importariam certamente de continuar a pagar, sobretudo para poderem ver um dia uma mulher presa por ter feito um aborto ilegal.

Por isso, se o “não” voltar a ganhar, o Português continuará a pagar caro toda esta hipocrisia pois, a recuperação de uma mulher que o faça num local não devidamente assistido terá complicações e custos que os hospitais se cansam de suportar com o dinheiro do contribuinte…

O direito à vida e direito a estar vivo são a mesma coisa? Que devemos defender? O direito à vida ou a estar vivo?


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publicado por J.Ferreira às 00:35

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