Até que o Teclado se Rompa!
"O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons." (Martin Luther King)

29 Março 2007

Por muito que custe a um determinado grupo de cidadãos (políticos que se julgam a elite social), para se ser democrata não basta ter-se sido eleito.

 

Com efeito, muitos ditadores também tinham sido eleitos… democraticamente!...

E muitos dos eleitos transformam-se em autênticos ditadores. E, Salazar também o tinha sido. Ou será que Salazar também foi mentor de uma revolução invisível como os capitães de Abril ?...

Pois bem. Este é um problema que as democracias têm e terão eternamente dificuldade em gerir: saber até que ponto um estado pode dizer-se democrático simplesmente porque, com base num determinado programa de governo, um determinado partido alcança o poder e, arroga-se do direito de legislar indefinidamente, contra tudo e contra todos, ressalvando apenas a postura de uma minoria.

Note-se que, os deputados deste governo aprovaram uma lei cujo conteúdo, parafraseando George Orwell no seu livro “Animal Farm”, traduzido em português (e, certamente, não por acaso!) por “O Triunfo dos Porcos”, se poderia expressar na seguinte frase: “Todos os portugueses são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.

 

Referimo-nos, claramente, aos políticos que nos governam. Todos nos lembramos ainda das recentes alterações que o Governo introduziu no Sistema de Pensões dos funcionários Públicos, nomeadamente dos professores (que terão de trabalhar e descontar mais de 45 anos!), considerando que todos os portugueses deveriam ter a reforma na mesma idade. Tal, parece-nos claramente injusto pois, se alguns apenas começaram a fazer descontos aos 28 ou 38 anos, outros começaram aos 18 ou 25 por exemplo. Como se faz justiça de redistribuição dos descontos para aqueles que mais tempo descontam? Como se pode dizer que é justo atribuir-se uma reforma na mesma idade a dois companheiros de universidade se um termina o curso aos 25 anos e o outro, andando a passear os livros e a fazer o Estado gastar muito mais na sua formação, apenas termina o seu curso aos 35 anos? E vão os dois para a reforma com a mesma idade? Então um sairá para a reforma e o outro ficará a descontar mais uns 15 anitos… Pois, pois… Por isso, alguns companheiros de universidade deixarão de poder confraternizar com os seus colegas de curso pois perdem o direito de passar à reforma com 35 anos de descontos (ficando a trabalhar mais uns 10 anitos) mas mantém o direito de ir ao funeral… (isto se a ministra não os penalizar muito nas faltas…) Assim, só porque um aluno foi bem sucedido nos estudos, é agora penalizado por esta lei do Governo que menos dinheiro gastou na sua formação, pelo simples facto de não ter repetido nenhum ano!... Grande prémio para os alunos Excelentes… Trabalhar mais que os “insolentes”…

E são estes governantes que querem dizer que é importante ter sucesso nos estudos…? Uma “ova”, diria o povo! “Reguilas” são os que terminam o curso lá pela casa dos 35 anos (perguntem ao José Sócrates!…). É que, a  reformarem-se com 65 anos, apenas terão feito descontos durante 30 anos… Os que acabam o curso com 25 (ou menos!) estão feitos: têm que descontar durante 45 anos… e fartar-se de trabalhar…até serem velhinhos como os outros… mas mais desgastados por terem iniciado mais cedo…! É esta a justiça que apregoam os socialistas…? É esta a meritocracia que tentam impor?

Só se depois de mortos, a família tivesse direito a um certo número de anos de reforma do falecido. Assim, sempre os mais penalizados teriam direito a deixar em herança o fruto dos seus descontos, que os herdeiros receberiam tipo “a título póstumo”… É que, com os cortes sistemáticos nos salários, e os congelamentos sucessivos na carreira, já nem a casa os funcionários públicos podem deixar de herança, uma vez que, não a levando o Estado nos impostos, os bancos encarregam-se de o fazer (para continuarem a apresentar lucros exorbitantes a que o perdão de impostos não é alheio!) ainda que seja tijolo por tijolo.

Aliás, não será, certamente, por terem trabalhado mais que a esperança média de vida se vai alongar… Antes o contrário, isso, sim, pode verificar-se. Ou será que o trabalho agora é tão importante medicinalmente que até dá juventude?

 

Com as suas medidas, este Governo está a passar, claramente, um atestado de incompetência ao actual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. De facto, foi durante o tempo de Cavaco Silva (em que este esteve à frente do governo do país como primeiro-ministro!) que foi construído o Estatuto da Carreira Docente que Sócrates diz desajustado e cheio de mordomias.

Para o governo de Cavaco Silva, o ECD era considerado um instrumento fundamental para a melhoria do Sucesso Educativo e da Educação em Portugal... Para além disso, José Sócrates passa também um atestado de incompetência ao seu companheiro (de governo e de partido), António Guterres, que, enquanto desempenhou as mesmas funções não deixou de reconhecer a função dos professores como fundamental ao avanço da sociedade...

 

Para José Sócrates, todas as profissões (excluindo, claro está, a dos políticos!) são todas igualmente desgastantesE, se Deus quiser (ou mesmo que não queira, para quem acredita na oração, bastará rezar…!) todos terão igual saúde, se não mesmo uma saúde de ferro...

 

Claro está que, para o Governo, o importante não é fazer a igualdade, mas antes, adiar a idade da reforma, o que significa pagar a reforma aos cidadãos comuns durante muito menos tempo, pois a esperança de vida, pós idade da reforma, diminui à medida que se aumenta a idade da sua atribuição! Por incrível que pareça, o exemplo não foi dado pelos legisladores. Assim, lamentamos que sendo todos portugueses (e os políticos os maiores responsáveis por o país chegar ao estado em que está!), o Governo e a Assembleia da República, se tenham acobardado e tenham mantido as mordomias exageradas dos políticos que se “reformam” com pouco mais meia dúzia de descontos, “ainda com o sangue na guelra”, o mesmo princípio não tivesse sido aplicado aos titulares de cargos políticos e similares. Mais… O incrível é que, apesar de terem criado um estatuto especial para as subvenções vitalícias dos políticos, ainda assim, os governantes tiveram a ousadia de adiar a sua aplicação para as calendas gregas, isto é, lá para 2013, altura em que seguramente, nenhum deles estará pelos corredores do parlamento e os próximos políticos vão revogar a legislação agora criada, com o argumento de que “não contribui para dignificar a função de deputado e não atrai os melhores para a política”.

 

Vejamos agora mais pormenorizadamente o alcance das medidas de Sócrates.

Sócrates ignorou a especificidade de determinadas funções exigentes ao longo da carreira, como é o caso dos docentes.... Por isso, não sei se estão ou imaginar mas eu já vejo como professora dos vossos e nossos filhos, uma idosa e dinâmica senhora de 62 ou 63 anos leccionando, numa escola do primeiro ciclo, todas as áreas disciplinares (incluindo a Educação Física!), equilibrada na sua bengala… (Que beleza... Quanta ternura...! ). E a comunicação social ajudou o Governo a vender esta medida como uma medida justa, na crença de que "uma mentira muitas vezes repetida se transforma numa verdade"!

 

Como pode considerar-se que um aluno universitário que acaba o curso de professor quando já está com 30 anos (filhinho de papá que anda a passear livros e como tal reprova várias vezes mas não há problema - lá diz o ditado "água mole em pedra dura tanto bate até que fura" - porque enquanto estudante foi sempre um baldas e um cábula, apenas faça descontos durante 35 anos (30+35=65) enquanto outros colegas da mesma turma que concluíram o curso com apenas 22 anos (porque se esforçaram, tiveram sucesso e gastaram menos dinheiro ao Estado para se formarem), terão de trabalhar e de descontar 43 anos (22+43=65). É esta a igualdade de que Sócrates tanto fala? Já repararam? Colegas da mesma turma... Que começaram a descontar para a Segurança Social na mesma data... ! Chamam a isto Justiça?

 

A continuar assim, teremos uns cidadãos que frequentaram a universidade numa mesma data a gozar a sua reforma nos cafés e outros a trabalhar, apesar de ambos terem já descontado para o estado durante o mesmo tempo? Que deve contar para se ter direito a receber? O que se pagou ou os poucos ou muitos anos que se viveu…? Não é este um incentivo a começar a vida activa mais tarde… Ficar no mercado negro durante uns anos e depois descontar apenas a partir dos 30 anos? Ou vão fazer trabalhar até aos 80 anos os que começarem aos 40 a descontar?

 

Para salvaguardar as expectativas dos senhores deputados, a alteração do sistema de cálculo das pensões dos senhores políticos apenas terá aplicação a partir de 2013.

Por que motivo apenas em 2013?

Façam as contas e depressa verão que as próximas eleições legislativas serão (a manter-se no ritmo normal dos acontecimentos pois lá diz o povo “não há uma sem duas, nem duas sem três”, e como tal, pode haver outra bomba atómica presidencial…) em 2009. E as eleições seguintes? Em 2013. Claro! Contas bem feitas (convencidos, claro, que o povo português será sempre masoquista, e que depois de uma maioria absoluta, vem uma segunda maioria, ainda que não seja absoluta) havia que colocar como data de efeito da aplicação da lei aos deputados o ano de 2013! Desta forma, o Governo não desiludiu os seus comparsas e uma grande parte do conjunto de deputados que suportam o governo, bem como uns quantos da oposição, conseguirão reunir em 2013 as condições para terem direito a receber do Estado as suas (míseras!...) subvenções vitalícias (eufemismo para dizer não dizerem que passam a receber uma pensão ou reforma com tão poucos anos de "trabalho" ...)

 

Independentemente de muitos continuarem bem jovens e com capacidades para trabalhar – o que explica o facto de todos ou quase, após terminarem o mandato e abandonarem o Parlamento, passarem a ser titulares de cargos de chefia no sector público (por nomeação) ou de direcção no sector privado (para o que trataram das suas vidinhas enquanto se “passeavam” no Parlamento) – a verdade é que o ataque aos diferentes sectores da administração pública não teve nenhuma medida que se aplicasse aos deputados que servisse de exemplo para que os portugueses pudessem dizer que, de facto, os deputados eram os primeiros a dar o exemplo… Uma vez mais a sabedoria popular nos faz valer o seu ensinamento “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte”. Ora, caros leitores, até podemos considerar que os nossos deputados não têm lá muita arte mas teremos de reconhecer que, para tratarem das suas vidinhas, "são artistas"!

 

Até 2013, "muita água passará debaixo da ponte". Assim, podermos ter a certeza que, tal como diz o poeta “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, quando chegar a altura de se aplicar a lei, os senhores deputados de então não perderão a oportunidade de preparar os portugueses para a alteração da mesma, protelando a sua aplicação para as calendas gregas, sob a desculpa de que é necessário atrair "mais e melhores cães para os ditos ossos". E não se cansarão a esforços para levar os portugueses e a opinião pública a acreditar que é preciso valorizar o estatuto da função dos cidadãos que se dedicam à política (como já todos estamos cansados de ouvir e que ainda há dois anos era mote de conversas televisivas) argumentando com a “necessidade de cativar os melhores para a política”. Convictos da força dos media onde, “uma mentira muitas vezes repetida se transforma numa verdade”, não hesitarão a matracar tais ideias na comunicação social para legitimar o estatuto privilegiado para si mesmos.

Porém, que se saiba até ao presente, pode haver carência de mão-de-obra em vários sectores mas não consta que nenhum lugar de deputado ficasse por preencher até ao presente.

Pelo contrário, “são mais de trinta cães a um osso”! Se o estatuto é assim tão mau, por que concorrem? Altruísmo? Acreditam que se interessam pela coisa comum?

Não deveriam os políticos receber do erário público apenas o correspondente ao custo da satisfação das suas necessidades básicas para apenas atrair para a política aqueles que de facto se querem dedicar ao Estado e aos Portugueses? Se acham que é pouco… “Por que se candidatam?

Por que não se aplica aqui a lei da oferta e da procura?

Ora, se estamos em ”época de vacas magras”, para quê pagar muito se há tantos candidatos e podemos pagar pouco?

Não lhes chega terem o reconhecimento social e os tachos que posteriormente lhes são oferecidos nas empresas por terem sido bons executores?

Ou será que têm medo de ser avaliados pelo seu desempenho e nenhuma empresa os queira integrar nas suas fileiras de trabalhadores?

 

Quase me arriscaria a fazer um pouco de futurologia e, ao estilo de Zandinga, dizer aqui que, chegando 2013, o Governo em exercício não hesitará em impedir a aplicabilidade da lei agora aprovada e reenviar de novo o início da sua aplicação para as calendas gregas. Duvidam? Também eu… Mas, “não há como esperar para ver”…

Não é por acaso que os lugares de deputados são tão apetecíveis.

Não é por acaso que usando uma vez mais expressões populares, são trinta cães a um osso”;

Como os políticos são os que fazem as leis lá diria o povo:

São eles que “têm a faca e o queijo na mão” e, como tal eles ficam sempre com a melhor fatia ou não seria verdade que “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte… ou é burro ou não tem arte.

 

 

publicado por J.Ferreira às 01:58

29 Março 2007

 

 

Que terão feito os professores à Senhora Ministra da Educação... (?) enquanto esta era aluna para que, uma vez chegada ao poleiro, não tenha qualquer pejo em colocar ao nível do subsolo um estatuto profissional e um reconhecimento social conquistados com muito esforço, tanto empenho e dedicação à causa educativa ?

 

Esta atitude dos governantes apenas poderá ter explicação à luz de um recalcamento por fracassos sofridos enquanto estes governantes estavam sentados nos bancos das escolas portuguesas como alunos! Quanto a nós, apenas poderemos concluir que, de facto, a medir pela competência destes governantes, a Escola não serve de facto para desempenhar o papel que a sociedade pretende: Desenvolver qualidades como o equilíbrio, o bom senso, a tolerância, o respeito, enfim, a competência!

Assim, não admira que, em Portugal, a incompetência tenha chegado ao Poder! Aqueles que mais exigem competência dos outros e se julgam competentes apenas ocupam o lugar de destaque porque, imagine-se, sem darem quaisquer provas de o que quer que seja, são eleitos pelo voto popular (diferente de verdadeiro reconhecimento de competência!) ou porque pertencem ao leque de amizades e conhecimentos dos chefes do partido mais votado e são convidados para cargos que nunca sonharam exercer, e, por isso mesmo, nunca para eles se prepararam! E assim vai esse país à beira-mar plantado!

Meus senhores! Entreguem a Educação ao Belmiro de Azevedo, ao Pinto Balsemão ou a outro empresário que nos diga para onde quer que vamos! Se os governantes fossem de facto competentes assumiam as responsabilidades pela bagunça que têm criado ano após anos na Educação. São eles que, dão constantemente ordens contraditórias, mandando os professores ora para um lado ora para outro, ora numa direcção ora noutra, mas que no fim os acusam de não terem chegado onde nunca os mandaram ir!

Limitados por leis que têm de cumprir e que os impedem de livremente organizarem a escola por forma a obter o melhor resultado (constituição de turmas, numero de alunos por turma,… etc.) os professores são obrigados a seguir sistematicamente indicações legislativas criadas pelo patrão que no fim muda conforme mudam os partidos do poder e se limitam a acusar os professores de falta de empenho, de profissionalismo, de dedicação e até, imagine-se, de não se importarem com o sucesso dos alunos! Ora, é precisamente a classe docente aquela que vive dia a dia com os alunos e que se interessa mais pelos seus problemas! Se não encontra soluções é porque os meios são escassos, as turmas enormes, os níveis dentro de uma mesma turma o obrigam a responder a questões diferentes quase que em simultâneo! Nenhum médico atende dois casos ao mesmo tempo! No bloco operatório segue apenas um caso de cada vez! A comparação feita pela Ministra é a prova mais que provada da sua incompetência, do seu desconhecimento do processo educativo! São palavras de burocrata habituada a dar aulas da sua cátedra indiferente ao resultado dos seus ouvintes que tenta projectar nos restantes docentes como se eles fossem o seu espelho! A classe docente é uma das classes que prima pelo profissionalismo! E não aceita de quem quer que seja lições de moral nem de pedagogia ou didáctica! Isto é o que pretende a senhora Ministra! Desacreditar os professores perante todos! Não o vai conseguir! O povo já se habituou à passagem de Ministros pela pasta que apenas destroem ainda mais o sistema porque, de ensino e aprendizagem, nada percebem!

E não será por decreto governamental que o governo vai fazer entrar na escola os fracassados e os que nunca se empenharam no esforço dos seus filhos! Façam os pais assinar os trabalhos e os cadernos dos seus filhos, os livros e as páginas cujo estudo acompanharam com a indicação referindo o que aprenderam ou não aprenderam os filhos! Nenhum ou quase nenhuns o fariam! Não estão para trabalhar… Mas para avaliar, muitos marcarão presença, nem que seja para tramar a vida aos professores!

E os eternos repetentes e aqueles que nem uma frase são capazes de escrever, sem que os erros turvem a sua leitura, também vão avaliar os professores!? Julgo ser caso para dizer: Bravo! Senhora Ministra! Com um simples decreto, acaba de formar milhares e milhares de pais para avaliar os professores?

Não foram os governantes que obrigaram há anos os professores a fazer formação pois consideraram-nos uns mal-formados? E os pais? Vão receber formação para avaliar ou não precisam porque o objectivo é criar apenas maior desestabilização nas escolas, criar um clima de conflito para dividir a comunidade educativa e legitimar a estagnação dos docentes em termos de progressão na carreira ; conseguindo desta forma que sobre mais dinheiro para os boys dos partidos obterem mais uns tachos?

Ou será que andou a tentar enganar toda a gente fazendo crer à população que os professores nada fazem mas afinal todos os pais têm uma formação que os dotou de competências tão vastas e tão amplas que, para além de peritos no seu trabalho (que os professores nunca terão direito de avaliar!) também são peritos em matérias tão sérias como a pedagogia, a didáctica, o conhecimento científico de uma maneira geral?

Se os pais são competentes para tal, para que precisam eles da Escola?

 

Senhora Ministra!

Os professores são dos profissionais com formação qualificada e de crédito indubitável, sancionado por imensos docentes ao longo de toda uma carreira de estudantes. Ao longo de cerca de 20 anos foram avaliados, nas mais diversas matérias, por profissionais que ninguém é detentor do conhecimento mais credenciados do país (professores universitários) que poucos se atreveriam a colocar em causa sob pena de desacreditar todo sistema. Submeter o resultado de longos anos de percurso académico a uma dúzia de horas ou a dois ou três indivíduos que avaliem a competências adquiridas, seria impensável por alguém que se digne ter o mínimo de senso comum.

 

Pretender afirmar que qualquer pessoa pode e tem capacidade de avaliar é o mesmo que dizer que muitos dos ensinamentos das universidades não têm qualquer razão de existir pois se adquirem sendo "pai" ou "mãe"... Permitir que indivíduos sem conhecimentos pedagógicos ou científicos (ainda que se reconheça a competência de alguns para tal), que não vivem nem "A Escola" nem "Na Escola" (e que muitas vezes preferem assistir à novela ou ao jogo de futebol que aparecer na reunião de pais) participem na avaliação dos professores dos seus filhos é o mesmo que permitir que uma testemunha preste depoimento em tribunal num caso que não presenciou ou de que nada conhece.

 

É inaceitável que profissionais que foram avaliados com o critério e o rigor das universidades, sejam submetidos à avaliação de pessoas que, tal como se viu nos comentários na internet no dia da divulgação da notícia, apenas buscam um motivo de vingança por terem sido inadaptados no seu tempo de alunos... Não se pode, de mofo algum aceitar, que os professores sejam avaliados por pessoas que, na sua generalidade, são alheios a conhecimentos do foro didáctico e/ou pedagógico!

 

Já reparou, Senhora Ministra, que é a qualidade de todo o sistema educativo e das próprias universidades bem como a dignidade de todos os docentes, incluindo os mais qualificados do ensino universitário que a Senhora Ministra acaba de colocar em causa! Séria e sinceramente, se de mim tivesse saído uma tal ideia peregrina, ter-me-ia demitido imediatamente!

 

Seriamente, apenas se pode concluir que tudo isto não passa de uma manobra de populismo para desestabilizar ainda mais o sistema educativo e desvalorizar o Estatuto já de si degradado dos professores! Este Governo pretende fazer crer aos cidadãos que, muito embora de pedagogia e didáctica nada percebam (salvo honrosas excepções pois também os professores podem estar na situação de « pais » ) podem perfeitamente avaliar os professores, diga-se, vingar-se deles sempre que as notas dos seus filhos estejam longe do desejado!

Além disso, veja-se a taxa de participação nas reuniões por parte dos pais que preferem faltar ao trabalho para ir ver a bola que para ir a uma reunião (ainda que seja à noite, se houver futebol, ei-los que ficam diante da televisão...)

Veja-se também que resultado foi alcançado na melhoria dos processos de acompanhamento familiar na aprendizagem com a participação dos pais na escola! Veja-se ainda que dinâmicas de confronto foram criadas em algumas escolas com a intromissão de cidadãos que de pedagogia nada percebem!

Para ter assento numa Escola, um professor tem de possuir um diploma, obedecer a certos critérios habilitacionais que atestam os conhecimentos científicos e a competência dos candidatos, os quais são determinados pelo empregador, seja ele o Estado ou Entidades Privadas!

Porém, para se ser pai, nenhum diploma é exigido, passando a ter-se « assento » na Escola automaticamente, isto é, basta ser-se « pai » e ter um filho matriculado na escola! Automaticamente, passa-se a ter lugar cativo! Mas, nenhuma exigência se lhes faz! Podem aparecer ou não às reuniões! Podem até mesmo faltar o ano todo! Que lhes acontece? Perdem o emprego? Não! Têm que prestar contas e justificações? Também não! Então por que têm os mesmos direitos se não têm os mesmos deveres? E podem aparecer para criar problemas e emperrar o sistema com as suas queixas, as suas questões inoportunas, as suas intervenções descabidas por terem faltado às outras reuniões, não compreenderem o que consta das actas porque desconhecem o vocabulário? Podem! Claro! Podem e devem chatear os professores porque as escolas são uma tal monotonia que até os professores adormeceriam se não aparecessem uns tantos de vez em quando para fazer parecer que estamos num estádio de futebol! E aparecem? Oh! Se aparecem! Sobretudo para descarregar sobre a escola o insucesso do seu clube, a «fúria» provocada pela atitude do árbitro que levou à derrota da sua equipa!

Como se pode aceitar que avaliem docentes pessoas que não têm quaisquer conhecimentos de pedagogia?

Como se pode aceitar que avaliem docentes pessoas que deixam muito a desejar na capacidade de educarem os seus filhos no âmbito do "saber ser"?

Como se pode aceitar que, por decreto, sejam sotados de capacidade avaliativa pessoas que não só não têm habilitações do mesmo nível como, tendo-as, não tenham tido, nunca, qualquer formação na área da avaliação tal como é exigido aos professores?

 

Desenganem-se os políticos portugueses. Já lá vai o tempo em que os professores temiam a avaliação. Haverá, porventura, profissionais portugueses que sejam, no seu dia-a-dia de trabalho, mais frequentemente avaliados que os docentes quando estes têm perante si um constante feedback bem visível nos resultados escolares dos seus alunos, mediante a realização de uma avaliação permanente decretada pelo governantes como "contínua e formativa" ? E, se todos reconhecem o valor da máxima popular que diz que "sem ovos não se fazem omoletes" também ninguém se negará a reconhecer que é do estado dos ovos que depende não só o número como a qualidade das omoletes que se podem fazer.

 

Os docentes não têm medo de ser avaliados! E desenganem-se também do ataque que fazem aos professores por recusarem ser avaliados pelos pais. É com eles que sempre trabalharam e trabalham no dia-a_dia, mantendo com a sua grande maioria (ou mesmo quase totalidade!) relações de simpatia e cordialidade... Não há qualquer animosidade por parte dos professores contra "os pais"! É que uma grande maioria dos professores também são pais. E têm consciência de que ser pai não é impeditivo da qualidade de avaliador! No entanto, ter sido pai e apenas ter sido pai não pode nunca ser aceite por profissionais da educação como critério suficiente para avaliar quem quer que seja. Por isso, o que os docentes exigem é ser avaliados por profissionais. Não profissionais que sabem dizer mas por profissionais que sabem fazer.

Que significa isto? Simplesmente que os docentes têm o direito de exigir uma avaliação por profissionais qualificados. Não apenas que tenham dado provas mas que sejam capazes de dar provas de num mesmo contexto, com os mesmos recursos, nas mesmas circunstâncias, serem capazes de fazer melhor! É que, dizer como se faz é fácil... decretar é fácil... fazer é que é difícil! E, milagres, segundo consta, são poucos por esse país abaixo e nem todos acreditam neles!

E isto vê-se « in loco »! Pessoas que se coloquem na sala de aula, frente à turma concreta em que determinado docente lecciona! Ora, se perante a incapacidade do docente fazer esses alunos aprenderem determinadas matérias, o avaliador provar que é capaz, então ai sim! Esse tem legitimidade para fazer a avaliação do docente em causa! Agora, teorias… deixem-se disso! Avaliar por avaliar… de nada serve! O que interessa é passar a tirar proveito da forma como se avalia! Para gastar apenas mais dinheiro aos contribuintes? « Não, Obrigado! ». Se formos sérios depressa vemos que esta acção apenas visa desestabilizar!

 

Que aconteceria se, após a carta de condução, os condutores tivessem que ser avaliados pelos automobilistas que usam também e com eles a mesma via pública? Seria uma autêntica guerra! Não! Muito embora eu possa ver um condutor fazer uma grande asneira, apenas me limito a desviar-me e nunca poderei interferir dizendo que é incompetente e como tal deve ser penalizado! Nesta matéria, são os polícias e guardas que têm autoridade!

 

Em matéria de conhecimento curricular das escolas, são os docentes aqueles que têm competência para avaliar os seus alunos! O que nem sempre é reconhecido apesar de estarem credenciados pelas universidades para o fazerem! Já imaginaram colocar um médico a dar consultas a doentes durante uma semana perante um júri, depois de ter conseguido passar o calvário que o levou à certificação das suas competências e à consequente obtenção do diploma? Era o descrédito de todo um sistema de ensino universitário que ficaria em causa... Com os professores passa-se o mesmo! Então porque se quer agora colocar em causa as suas competências avaliadas pelas mesmas universidades? E os engenheiros? E os advogados?

 

Os professores apenas podem aceitar ser avaliados por um grupo de profissionais do mesmo ramo que tenham dado provas de competência profissional em ambientes de trabalho e que, nas mesmas circunstâncias e com os mesmos recursos, demonstrem serem capazes de fazer melhor!

 

De outro modo, deixemo-nos de tretas... Em qualquer profissão é sempre mais fácil ser-se um profissional com bons resultados quando a matéria-prima é de primeira qualidade! Porém, os alunos não são tijolos! A matéria-prima com que trabalham os professores é a pessoa humana, única e sem paridade.

Um alerta aos caríssimos colegas profissionais que se pensam os melhores de todos porque as vossas escolas são as primeiras do Ranking... Cuidado com a vaidade e a auto-estima exagerada e injustificada! A defenderem uma filosofia de pagamento de vencimentos conforme os resultados dos alunos, preparem-se! É que o Governo pode ter a coragem de obrigar os professores das melhores escolas do ranking a demonstrarem as suas competências, no ano lectivo imediatamente seguinte, precisamente na escola antípoda da posição obtida por aquela em que se encontram a exercer actualmente, isto é, os docentes das escolas do ranking, vão exercer funções nas últimas... E, de professores bestiais, dos melhores do mundo, vamos todos rir-nos quando descobrirmos que é o consultório do vosso psiquiatra que estará "à pinha" de gente e que estais entre os seus clientes...

 

Senhores governantes... Deixem-se de tretas e tratem da governação dos verdadeiros problemas do país: falta de emprego, falta de habitação condigna, falta de segurança social, falta de... tudo! A ânsia dos governantes em avaliarem os professores a todo o custo e sem quaisquer critérios de justiça e equidade, está a colocar o estatuto dos professores pelas ruas da amargura. E são os médicos (sobretudo os psiquiatras!) que se ficam a rir, com os consultórios ainda mais cheios de docentes! E a Segurança Social não tarda na banca rota pois como vai suportar o pagamento de vencimentos a tanta gente à beira da loucura?... Mais, a continuar neste processo de desgaste e desmoralização das tropas não ganhará nenhuma batalha, e, muito menos a guerra! Lembrem-se sempre, "os ministros passam... os professores ficam"! Em vez de se preocuparem com o sucesso dos alunos os professores preocupar-se-ão em agradar a quem os vai avaliar! Seria um descalabro!

Na verdade, antes de chegar a ser professores, os docentes foram alunos e foram sistemática e criteriosamente avaliados, anos e anos a fio, submetendo-se durante quase 20 anos a avaliação de profissionais competentes nas diversas áreas! E nunca o Estado se lembrou de gratificar no salário aqueles que saíram melhor classificados! E adivinha-se bem por que motivo…

Avaliar não pode ser uma questão de treta! Os professores trabalham com pessoas... e não com tijolos! Avaliar o trabalho como bom ou mau implica ser capaz de fazer melhor num mesmo contexto, num mesma situação! Não queiram que um piloto tenha um mesmo lugar no campeonato de rally quer ele conduza um BMW quer ele conduza um Twingo!

A fim de atingir os seus objectivos — a destruição total do Sistema Educativo, única forma que encontra de deixar de serem desenvolvidos cérebros no nosso país e assim se perpetuarem no poder — os governantes portugueses não se cansam de atingir a dignidade dos profissionais de educação.

No ataque que faz a tudo e a todos, contra a filosofia e demagogia que usou para alcançar o poder, Sócrates e seus ministros beneficiam de de uma situação em que "a Oposição" se encontra anestesiada, parecendo incapaz de se recompor do desaire eleitoral das legislativas. Só assim se pode compreender que, perante o ataque do governo de Sócrates ao Sistema Educativo, o mais forte partido da Oposição (co-responsável juntamente com o partido que agora se encontra no governo pelas políticas educativas dos últimos anos e pelos caminhos trilhados na Educação) continua sentado nas bancadas da Assembleia da República sem uma tomada de posição clara e forte contra os mais indignos ataques aos docentes feitos por este governo, na defesa dos profissionais que se limitaram a seguir as orientações dos governantes que mudam como quem muda de camisa.

Esta Oposição adoptas uma postura inerte, procurando algo que justifique a sua existência, parece sofrer dos efeitos de uma anestesia crítica. Parece pois, ter chegado a uma das situações críticas que põem em causa a sua existência e a que o sociólogo francês, Emile Durkheim, chamaria de estado anómico. Com efeito, não encontra meios de recompor-se e por isso pouco ou nada faz para impedir que o actual governo defira golpes brutais naquilo que anteriores Ministros dos governos PS e PSD haviam tido como os melhores caminhos para a melhoria do Sistema Educativo. Ora, se anteriormente ainda havia na classe docente uma motivação para a mudança, um empenho dos professores que desempenhavam as suas funções com entusiasmo e profissionalismo, este governo aniquilou de uma assentada, não apenas o respeito que era devido aos professores como a sua imagem na opinião pública.

Esperava-se da "Oposição" a luta pela melhoria da qualidade da Educação de um país, desempenhando um papel fundamental na crítica cerrada à postura aniquiladora da dignidade da profissão docente que este governo está a levar a efeito com medidas legislativas e verdades fabricadas na comunicação social.

Uma classe que deveria ser estimada por todos pois é com ela (e não contra ela!) que se constrói a estabilidade necessária ao desenvolvimento de um trabalho pedagógico de qualidade que possa conduzir a uma futuro mais promissor para os nossos jovens, e consequentemente, o avanço de um país!

 

Creio que já seria bem chegada a hora de os nossos governantes reflectirem sobre a afirmação de Claude Charbol, escritor francês: "A estupidez é infinitamente mais fascinante que a inteligência. A inteligência tem limites; a estupidez não."

Mas como falar em estupidez não pode deixar de fazer lembrar as afirmações de certos políticos que no Portugal Moderno chegaram às cadeiras do poder, esta máxima faz ainda mais sentido se, associada a ela se lançar uma questão a que, por certo, muitos gostariam ter resposta: 

Se a estupidez pagasse imposto, Quanto receberiam os governantes?

 

 

publicado por J.Ferreira às 01:39

29 Março 2007

 

Crónicas do Desencanto - Entre o Pântano e o Deserto

 

Qualquer cidadão, ainda que pouco atento aos problemas da educação, concordará que a Educação segue por caminhos sinuosos, um tanto obscuros e desconhecidos, em forma de zigue-zage, sem se saber muito bem qual o destino ou se há, de facto, algum objectivo educativo real digno desse nome. Andamos à deriva, em busca de um caminho, trilhando percursos aleatórios, com medidas avulso, inesperadas, sem um programa de facto compreensível para os professores e para os portugueses. Sabemos que temos alguém a chefiar o Ministério mas, cada vez que muda o chefe, sabemos que mudam todas as estratégias, muda o rumo.

Não há, pois, memória de um Governo que tenha contribuído tanto e de forma tão drástica para:

– aumentar o descrédito da população relativamente ao profissionalismo dos docentes;

– destruir a carreira construída ao longo de mais de 30 anos de luta;

– criar e desenvolver numa classe o desencanto profissional

transformar a Educação em Portugal num autêntico pântano;

 

Os professores são dos poucos grupos profissionais mais interessados na melhoria do processo de aprendizagem dos alunos e da cultura e competência dos cidadaos. Por isso, sempre se prontificaram para levar a cabo reformas que os (ir)responsáveis pelas políticas governativas decidiram empreender ao longo das últimas duas décadas.

Porém, como os resultados das políticas se distanciam cada vez mais do do desejado, há que descobrir e apontar um bode expiatório para o fracasso das políticas governativas. Assim se compreende que, de há uns anos a esta parte, os professores tenham passado a ser o alvo preferido de sucessivos e inqualificáveis ataques por parte dos dois últimos governos. Ataques que ferem não se limitam a ferir apenas o profissionalismo dos docentes mas que chegam a atentar contra os seus legítimos direitos e mesmo contra a sua dignidade pessoal e profissional.

Com efeito, os governantes não se têm cansado de lavar as mãos da maior responsabilidade que é evidentemente sua e dos seus anteriores, tentando passar para a opinião pública a ideia de que os professores são os responsaveis pelo estado a que chegou a educação e, por isso, devem ser avaliados e responsabilizados pelos erros de politica, criando-se para tal critérios que classificamos como inacreditáveis em democracia. E, nao desistem da ideia de julgar a competência dos professores "na praça pública" usando para tal criterios como por exemplo (imagine-se!...) os resultados escolares dos alunos e as taxas de abandono escolar...

 

Insatisfeitos com esta injustiça, o Governo Chefiado pelo Senhor Engenheiro (?!) José Sócrates tratou os pais como ingenuos, presenteando-os com o (pseudo) poder de avaliarem os professores, tal como se oferece "um rebuçado" a uma criança, pensadno que com isto os faria esquecer as dificuldades que lhes tem criado na vida com o encerramento das escolas, o pagamento de portagens, o encerramento de maternidades, e, acima de tudo, distraí-los dos problemas que atravessa o país.

 

Para esquecer as desgraçadas consequências das medidas governativas, o Governo tentou "vender" aos portugueses um pouco de poder que, de facto, não corresponde a poder nenhum. Assim nasceu a brilhante ideia da Ministra da Educação segundo a qual "todo e qualquer cidadão pode avaliar os professores. Não se sabe onde vão buscar a competência!... Claro: Ao acto que lhe permitiu a paternidade!... Lógica da Ministra: Se um indivíduo é competente para fazer filhos, também é competente para avaliar os professores! Pois bem... Grande Lógica, Senhora Ministra... Mas, cuidado! Temos a certeza de que, não deve haver lugar algum neste Planeta, onde não haja quem classificasse essa lógica como a "Lógica da Batata"!

 

Sabendo que excepções existem pois há muitos pais preocupados com os trabalhos de aprendizagem desenvolvidos na escola pelos seus filhos, muitos dos pais jamais faltariam a um "jogo de futebol", a um "capítulo da Novela" ou a uma "reality show" tipo "Quinta das Celebridades" para participar numa reunião na Escola... os professores recusam-se a serem avaliados por pais que nunca verificam os trabalhos de casa dos seus filhos, que nunca verificam se o filho têm o material escolar na pasta, o livro necessário para trabalhar, antes de saírem para a escola e que ficam indignados por haver falta de solidariedade dos colegas mais interessados que se recusam a emprestar-lhes sistematicamente o material, etc... etc...

Pais que nem educam os seus filhos no "saber ser" e no "saber estar" não têm o mínimo de credibilidade para se apresentarem como avaliadores, nem muito menos de serem apresentados pela Senhora Ministra como competentes para tal...

Quem vai avaliar os pais na sua função de acompanhamento da aprendizagem dos filhos?

Que se vai exigir aos pais e como vão ser penalizados sempre que o filho se apresentar na escola sem material necessário ao bom e normal desenvolvimento das actividades sem a constante perturbação causada pela sistemática falta de material?

 

Porém, não contentes com este absurdo, os governantes elegeram os professores como um alvo a abater, e parecem imparáveis nas suas intenções: destruir o sistema educativo, impedir a educação de qualidade que merecem os cidadãos, criar um Portugal de analfabetos (e criticam Salazar...) e, obviamente, culpar os professores por tudo isto... Ora, creio que nem Salazar se atreveria a desenvolver uma ideia tão... sui generis, para não dizer mesmo absurda!

Esta atitude do Governo, não passa de um acto demagógico assente na expectativa de colher o apoio dos pais contra os professores, expressão de um certo "Estado de Desespero" resultante da consciência que os governantes têm, de serem eles os responsáveis máximos do estado de coisas a que se chegou, pela sua manifesta incapacidade de desenvolver políticas educativas capazes de mobilizar o país para fora do pântano em que eles mesmos colocaram a Educação...

 

Assim, esta é mais uma tentativa de encontrar um bode expiatório para a sua auto-desresponsabilização perante os portugueses face às mudanças que impuseram no sistema educativo e na forma de agir dos profissionais de educação, sem quaisquer certezas de que as suas iniciativas legislativas seriam bem sucedidas e de que as mesmas contribuiriam para melhorar o sucesso educativo.

 

Os professores têm demonstrado ao longo dos anos ser um grupo profissional responsável e empenhado na busca de soluções para a melhoria da educação em Portugal, contribuindo para o desenvolvimento do país. Poucos profissionais se sujeitariam, como os professores, a exercer em locais sem quaisquer condições como as que proliferam ainda pelo país: sem as mínimas condições sanitárias exigidas por lei, sem aquecimento, sem qualquer conforto para os alunos nem para os professores, ou até mesmo de segurança. Tantos e tantos anos, isolados nas aldeias recônditas deste país, quantas vezes a dezenas de quilómetros para o meio da serra sem terem tão pouco um telefone para chamar uma ambulância, em caso de emergência!. E continuam a trabalhar dando o seu melhor, na expectativa de ajudar a construir um Portugal mais desenvolvido, mais próspero e mais solidário.

 

Por isso chegou a hora de dizer Basta!

 

Os professores não podem aceitar que se continue num processo de desgaste da imagem construída com muita dedicação, quantas vezes com sacrifício próprio e da família, e acima de tudo, com muito esforço e profissionalismo!

 

Incompreensivelmente, não faltam por aí uns quantos senhores, que se auto-consideram de uma intocável sabedoria, não se coíbem de tomar as decisões que interferem na autonomia pedagógica que deveria pertencer ao profissional.

Na verdade, por exemplo, o manual escolar que um professor utiliza nas escolas é, na maioria das vezes, escolhido por outros docentes…Um professor quando chega à escola, recebe uma turma e tem um manual como ferramenta de trabalho que foi adoptado por outros professores, por vezes há dois ou mais anos! E quantas vezes cheio de falhas científicas…

Por outro lado, os professores nunca (ou quase nunca) são consultados quanto às reformas que seria necessário implementar ou ao investimento em termos de recursos que as escolas necessitam. E se o são, não passam de meras consultas para delas "fazer tábua rasa"… Não é assim que o governo trata os parceiros sociais? Ouve-os, de acordo com a lei, coloca isso no preâmbulo dos normativos mas, de facto, não passa de isso mesmo. É que o governo não é obrigado a seguir, nem uma única vírgula, do que é proposto e sugerido pelos profissionais como metodologia a implementar para o sucesso escolar… Depois, os governantes ainda "têm lata" de culpar os professores que tanto se cansaram de alertar para a desgraça da via escolhida pelo governo… Mas eles é que foram eleitos… e o povo tem apenas o que merece!…. Não é verdade que foram os governantes que determinaram que uma criança que apenas conhece duas letras do alfabeto deve continuar no mesmo grupo-turma que os restantes que já lêem e escrevem bem? Pobre criança…

Se percebessem a sabedoria das palavras do Presidente da Câmara de Ponte de Lima quando afirmou prefiro pertencer à primeira e maior Vila de Portugal que ser da última e mais pequena cidade do país, depressa perceberiam o quanto será frustrador para o ego da criança continuar no meio das suas companheiras da mesma idade. É que entraram todas ao mesmo tempo na escola mas realizam trabalhos de dificuldade muito diferente, mais avançados, e são bem sucedidas…

Fazê-la integrar outra turma será uma frustração para a criança? E ficar a recalcar a frustração de não ser capaz de acompanhar os meninos bem sucedidos, com quem ingressou na escola? Não é frustrador? Ou será necessário ficar com os restantes para que se mentalize e consciencialize de que ela é realmente um fracasso…? Ou será que alguém acredita num milagre do tipo, a criança que nada aprendeu num ano vai conseguir "apanhar" os restantes…? Só se esses ficassem parados… Nada mais aprendessem… Pois, ao ritmo que levam, naturalmente, o que ficou irremediavelmente para trás, nunca mais chegará a acompanhar os que vão à frente… Não é assim em tudo? E também no futebol? Quem acredita que, a meio do campeonato a equipa que não ganhou nem um único jogo, que apenas empatou um ou outro, possa chegar ao final e vencer o campeonato? Só por milagre…

 

Na maioria dos casos, os professores "não são tidos nem achados" nas decisões que levam à escolha da forma como se investe na educação... Quantas vezes os responsáveis pela administração das verbas púbicas não enviam material didáctico para as escolas sem consultar as necessidades junto dos profissionais... Por isso, a maioria das escolas limitam-se a receber livros (e outros) que mais parecem ter sido adquiridos "a metro" ou "ao quilo", imitando a velha publicidade televisiva em que uma empresa vendia mobílias ao quilo: "Ao Quilo é Uma Maravilha!"

Noutras escolas, os professores vêem chegar computadores e máquinas sem que haja a necessária segurança e, mais dia, menos dia, confrontando-se com a triste "sina" de ver a escola assaltada e os ditos computadores desaparecerem...

Depois querem sucesso! E se o não obtêm… a culpa é dos professores! Claro… lá diz o povo: não pode morrer solteira…! A verdade é que ninguém parece estar interessado em casar com ela (muito menos os políticos que têm acesso aos media para a "sacudir do capote") e por isso, há que encontrar um bode… expiatório, claro: o único que será obrigado a "levar com ela" toda a vida.

 

Os professores, na sua generalidade profissionais com brio e empenho, são constantemente culpabilizados pelo insucesso escolar dos jovens quando deles não depende nem a decisão sobre os recursos a afectar à educação, nem mesmo o destino a dar aos parcos recursos que são investidos pelo governo.

Os professores portugueses não são em nada menos profissionais que os seus homólogos estrangeiros e, ao contrário do que é normalmente dito, exercem muitas mais horas lectivas nas escolas que os seus homólogos franceses ou espanhóis...

A questão é de saber, porque conseguem bons resultados em França e em Portugal não? Onde estará o problema?

Bem... resposta não parece ser fácil... Mas, já pensaram quantos Governos teve a França nos últimos 30 anos? E a Espanha?... Não sabem...? Investiguem! Depois, comparem com Portugal... Talvez encontrem onde está a diferença!

 

A verdade é que os professores em Portugal se limitam a seguir as instruções emanadas dos governos, caso contrário estariam fora da lei e sujeitar-se-iam a fortes penalizações...

Excepção, e justiça seja feita, diga-se na defesa da verdade, aos professores da escola de Vila das Aves que, com coragem e determinação mas também muito risco (ou costas largas... pois não se percebe como puderam seguir ensinando violando as leis da República...!). Mas seguiram os seus ideais, quantas vezes contra a lei e sujeitos a "perseguições"... Agora, findos longos anos de irreverência perante a administração educativa, "passaram de bestas a bestiais" ao verem o seu trabalho ser reconhecido como muitos gostariam de ver, simplesmente lhes falta a perseverança e coragem de arriscar avançar contra os normativos, enfim, contra o Sistema.

 

E é aqui que reside a diferença. Todos os professores são capazes de executar um bom trabalho. Mas não podem ir além do que lhes é imposto pelos normativos. Com a sua função balizada, enquadrada, entalada por todos os lados com normativos que determinam linha a linha o que podem ou não podem fazer, desde quando e até onde podem ir, sujeitos a inspecções e a exigências de que seja cumprida a legalidade normativa, a maioria dos professores limita-se a ser tão bom profissional quanto a lei o permite. Inovador... Só se for fora da lei. A lei determina tudo. O professo limita-se actualmente a cumprir normativos: leis, despachos, regulamentos, circulares,... um sem número de diplomas que tem de ler e conhecer para poder desempenhar a sua função sem que seja objecto de um processo disciplinar. Neste clima de medo de infringir a lei e os regulamentos, os professores desgastam as suas energias para estar a par da legalidade, pois o seu desconhecimento não os livra de um processo disciplinar.

 

Por isso, se não há muitos professores como os de Vila das Aves, é pelo mesmo motivo que não há muitos heróis ao longo da nossa História... como esses heróis.

 

O estado da Educação em Portugal é pura e simplesmente o resultado das políticas educativas levadas a cabo pelos diferentes responsáveis pela pasta da educação. De facto, vem uma equipa ministerial e dá ordens para que se caminhe numa direcção e, em pouco tempo, por vezes menos de um mês, surgem ordens contraditórias que ordenam aos professores que devem seguir noutro sentido.

 

Esta situação tem que acabar. Os governantes não podem continuar a "lavar as mãos", das suas responsabilidades lançando constantemente a suspeita sobre a competência daqueles que, dia a dia e muitas vezes sem quaisquer meios, são confrontados com os problemas da mais variada ordem. E desculpem me a linguagem futebolística, mas, se um treinador de uma equipa de profissionais a conduz a maus resultados, deve ser responsabilizado. Pois bem. Os professores são profissionais com habilitações e competências diferentes (como em todas as actividades humanas) reconhecidas pelas mesmas universidades que formaram os senhores engenheiros, advogados, médicos, economistas, etc. que governam o nosso país.

 

Não se compreende como pode o governo estar constantemente a pôr em causa a educação e a formação dos professores quando o defeito está na política do Ministério que joga num terreno caracterizado pelo pântano legislativo. De facto, em linguagem futebolística, o Ministério da Educação comporta-se como aquele treinador que no fim de um jogo internacional, após ter passado todo o jogo a emanar ordens contraditórias para dentro do campo — obrigando os jogadores a fazerem de "baratas tontas", ora exigindo que ataquem todos pela esquerda, ora indicando-os que devem atacar pela direita e simultaneamente criticando-os por não estarem todos no centro do campo — ainda tem o desplante de vir para a sala de conferências de imprensa criticar os jogadores pelo mau resultado obtido, não assumindo quaisquer erros na estratégia de jogo que implementara no campo.

 

Numa empresa privada, não é aceitável que aqueles que tomam as decisões (que determinam a estratégia e que decidem o que se deve e o que se não deve produzir, que matéria-prima se deve ou não utilizar, em que horário devem os operários laborar) se desculpem culpabilizando os funcionários que apenas se limitaram a executar o que lhes foi solicitado. Muito menos se pode exigir que o resultado seja "resmas de folhas de papel branco" quando a ordem foi para produzir "cartão".

O que falta aos nossos governantes é verticalidade para assumirem os erros das suas estratégias. Nisto se distinguem, de facto, dos gestores das empresas privadas.

 

Portugal precisa de privatizar a forma de gerir a educação. É de um Ministro da Educação com as qualidades de um gestor que Portugal precisa. Os professores estão cansados de serem o bode expiatório para a incompetência de quem legisla. Nenhuma empresa que ambiciona o sucesso tenta alcançá-lo desmoralizando os seus trabalhadores. Um bom treinador sabe que precisa dos seus jogadores para atingir o sucesso. Por isso preocupa-se com "o moral" da equipa. Há até clubes que têm psicólogos para acompanhar os jogadores e levantar "o moral". É com a equipa que se constroem vitórias e não contra ela.

 

Mas a Senhora Ministra da Educação ainda não se apercebeu desta realidade... Critica os professores de não saberem trabalhar em equipa... E que exemplo dá?... Pode saber ouvir, mas não parece saber escutar... Por isso rejeita a colaboração de todos... Até mesmo dos seus pares da Assembleia da República...

 

E o pior é que os políticos não se coíbem muitas vezes de faltar à verdade. Veja-se o caso da análise das faltas dos professores (que parece não poderem ter filhos, estar doentes, serem vítimas das congestionadas estradas nos longos percursos que fazem diariamente para, à sua custa, servirem os jovens portugueses)... A Ministra sabe que em Portugal os professores são dos profissionais que menos faltam ao seu trabalho. Confrontem-se as folhas de descontos para a Segurança Social e veja-se quantos dias por mês descontam os trabalhadores, multiplique-se pelo numero de horas de falta, incluindo gravidez, morte de familiares etc... etc... e publique-se as estatísticas da mesma forma que fizeram com os professores a quem um atraso de 5 minutos corresponde à comunicação de uma hora (ou cinco horas de falta) ainda que o professor esteja as restantes horas do dia a trabalhar no estabelecimento...

 

A estratégia utilizada pelo governo para "queimar a imagem social dos professores" tinha sido muito bem pensada e estrategicamente planeada para retirar a força aos professores junto da opinião pública. Passar a ideia de que os professores faltam muito e de que nas escolas não se trabalha foi uma estratégia pouco digna porque falsa, utilizada por uns tantos socialistas – veja-se a opinião ridícula de Miguel de Sousa Tavares pronunciada aos microfones de um dos canais de TV–, que apenas demonstra a falta de ética na sua forma de fazer baixa política, conhecida por nós como "não olham a meios para atingir fins!".

 

Não admira, pois, o desespero de alguns professores que, de um dia para o outro (e por lhes faltar uns míseros 30 dias de tempo de serviço), viram a sua idade de reforma adiada por mais 10 anos. O descrédito de muitos dos profissionais cansados de verem alteradas as regras dos concursos cujos resultados implicam necessariamente com o estado de equilíbrio emocional e sócio-familiar, o desencanto de todo um grupo profissional que vê o seu já efémero prestígio fortemente atingido por um governo que não se cansa de fazer rebaixar os professores. Sim, tantos e tantos que por esse Portugal fora, em escolas sem quaisquer condições de trabalho, deram tudo de si para o desenvolvimento do país...

Tantos e tantos professores que passaram a vida a gastar o que ganhavam para exercer as suas funções com qualidade, se deslocavam dezenas (e por vezes centenas) de quilómetros, para levarem o conhecimento, a cultura, a esperança aos jovens do país.

 

Que governantes mais ingratos... Tanto se esforçaram os professores para levar a bom porto os diferentes e contraditórios rumos estipulados pelos diferentes governos... E agora, não olham a meios para salvar a pele da incompetência... De nada valeu aos professores terem servido com profissionalismo e empenho a causa educativa, cumprindo sempre as directivas governamentais independentemente de em muitas ocasiões discordarem da sua implementação.

Na hora da verdade... os professores são sempre os culpados dos males… Os políticos apenas estão dispostos a receber os aplausos e condecorações de mérito…

Mas… Até têm razão. Não foram os professores portugueses que, por essas escolas do país formado os governantes actuais? Bem… Querem uma melhor razão para serem eles os culpados das desgraças do país…? Os professores são, de facto e em última análise, os culpados de termos o Governo que temos.

 

Hoje, numa sociedade sem valores, já nada espanta os professores! Basta analisarmos as palavras de uma mãe que, interrogada sobre os resultados do filhinho, afirmava quando eles eram excelentes:

"Ah! O meu filho é tão inteligente!"

Mas quando mais tarde alguém a interrogou de novo e os resultados já não eram tão bons, já não teve qualquer pejo em dizer:

"Oh! Claro… como há-de aprender se o professor é um grande BU_ _ _ ?"

 

O quê...? Faltam letras?!.... Não sabem o que diz o Zé-Povinho?

"Para bom entendedor, meia palavra basta !"

 

publicado por J.Ferreira às 01:05

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