"O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons." (Martin Luther King)

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Out 18

Foi no inído da década de 90 do século passado, que se iniciou uma onda que levou à machadada na solidariedade inter-geracional. Tal ocorreu quando o governo de então, dirigido por Aníbal Cavaco Silva, avançou com a decisão de aumentar colossalmente o valor das propinas a pagar pelos jovens que frequentavam as universidades, fazendo passar a ideia de que ser estudante universitário era um luxo.

 

Algumas atitudes impensadas de alguns, levaram a juventude universitária a perder a razão, dizem alguns. Que fique claro que, ainda que discorde das atitudes de meia dúzia de estudantes perante o Sr. Ministro da Educação, demonstrando, de facto, uma clara “falta de educação”, na verdade o que estava para acontecer veio retirar a muitos o direito à Educação e ao prosseguimento de estudos. E discordo porque, se a luta estudantil teve episódios caricatos (e até censuráveis) da parte de uma meia dúzia de estudantes mais irreverentes ou com a cabeça quente, não concordei nunca que, por meia dúzia de “andorinhas” terem tomado uma atitude criticável (repito, de meia dúzia de estudantes) se afirmasse que as outras centenas de milhares de estudantes tivessem perdido a razão. Mas, a maioria não foi assim que pensou. E a lei avançou. Os estudantes perderam. Sim. Perderam. Mas perdeu todo o país. E veremos por que motivo afirmo isso.

 

Com a chegada das eleições legislativas de 1995, renasceu a esperança de que a lei não fosse avante, fosse revertida. António Guterres chega a primeiro-ministro e os valores inicialmente referidos foram moderados. Porém, e como diz o povo, “foi Sol de pouca dura”. E não tardou que o valor das propinas chegasse aos patamares previstos por Aníbal Cavaco Silva e, passados poucos anos, chegou mesmo a ultrapassar o absurdo de 2 salários mínimos por ano!

 

Em 1997, Miguel de Sousa Tavares (MST) dirigindo o programa da SIC “Viva a Liberdade” com a participação permanente dos comentadores José Pacheco Pereira e António Barreto. Num dos programasem que se debateu o tema PropinasMST (hoje nem sei se comentador, se jornaleiro, se advogado ou se escritor) apareceu como um acérrimo defensor do princípio do "utilizador-pagador", justificando e aplaudindo o colossal aumento das propinas com o pretenso “balúrdio” que os formados com licenciatura viriam um dia a ganhar.

 

Deveria ter em mente entulhada com a ideia de que, as universidades estavam repletas de malandros que só fugiam para as universidades porque não queriam trabalhar e, como tal, mereciam ser castigados.

 

Ora, as famílias perdiam muito dinheiro pois os jovens que (com 18 anos já poderiam trabalhar e levar para casa um salário…!) iam estudar (e contribuíam para melhorar os níveis de habilitações dos portugueses e ajudar Portugal e abandonar a cauda da Europa) deixaram de ganhar um salário (mais grave, estudando só gastavam dinheiro aos pais) e, ainda por cima, viram as suas famílias a ter de fazer sacrifícios ou um esforço extra para desembolsar milhares em propinas absurdas e, sobretudo, injustas. Repito: absurdas e injustas. Absurdas, porque nos termos da Constituição, a justiça faz-se através dos impostos, e não das taxas que inventam, duplicando os impostos sobre rendimentos que já foram taxados! E injustas, porque (o pior de tudo!) os que pagavam impostos eram os que voltavam a pagar e os que devida ou indevidamente não pagavam impostos, continuaram a não pagar propinas. E, infelizmente, ainda hoje é assim!

 

Com a aplicação do princípio do "utilizador-pagador" (que não aplicam a todos os âmbitos da sociedade) criaram tremendas injustiças e afugentaram jovens das universidades que, contrariamente ao espírito inscrito na lei (que nenhum estudante deixasse de estudar por motivos económicos) “deixaram de estudar por motivos económicos”.

 

Estive contra por motivos óbvios. Todos os cidadãos de uma sociedade beneficiam da melhoria dos níveis de formação dos seus compatriotas. Porém, aqueles que até então se formaram nas universidades “sem pagar um chavo”, não estiveram com meias medidas e cortaram o financiamento da formação dos seguintes. MST pertence a uma geração que recebeu formação grátis, paga pela geração anterior mas que não quis contribuir para formar a geração seguinte... E muitos tiveram que sacrificar as suas famílias para que os seus filhos pudessem estudar. A geração de MST recebeu mas não esteve disposta a dar...

 

E lá de e foi a solidariedade entre gerações.

publicado por J.Ferreira às 23:32

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